Fagulhas de uma Fenix


16/07/2008


Seguindo os passos do coração

Sou Cecília, sou Maria, sou Violeta, sou Adélia ou Raquel. Sou todas elas. Não sou nenhuma. Sou eu, sendo elas. E assim vou tecendo essa trama de livros, poemas, palavras e vida...


Sou Cecília, sou sonhadora. Sonho com o mar, com navios e noturnos vestidos azuis.


Tenho, também, fases como a lua. Fases em que procuro canteiros para esconder minha tristeza, depois do crepúsculo. Em que ando a procura de espaço para o desenho da vida. Como Cecília, perco-me nos números, por isso gosto das letras. Nelas encontro a medida. Não do tempo ou das coisas, mas a exata medida de minha inquietação. Se escrevo, fujo de mim e me encontro, comigo, com Violeta, com as muitas Marias que também sou eu.


Nas palavras enxergo a verdadeira dimensão do vazio que eu mesma crio e que só eu posso preencher. Não sei vou ou se fico, se desmorono ou se edifico. Queria ser poeta. Então brinco com as palavras como se elas me respondessem. E elas me respondem firmes, duras, que eu sou o que eu digo de mim. E eu digo sempre que eu sou o avesso, o oposto, o que não querem que eu seja. Não só para contrariar, mas para ser intensa, ainda que tensa e diferente, sendo igual.


Não quero ser. Quero estar sendo, sempre. Quero dar graças à vida, como Violeta. Mas não quero morrer de amor. Quero viver de amor. Quero sentir a cada instante, a cada pulsação, assim calma, assim pausadamente o fluir do amor que cerca e me possui. Intensamente. Não concordo com Bandeira, as almas se comunicam sim, e não estragam o amor. Minha alma sobrevive de amor. Não o meu corpo. Meu corpo quer é paixão, arrepios, mas minha alma quer serenidade. Quer companhia. Pra conversar. Falar de amenidades, de poesia, de nuvens. Quer a primavera de Vivaldi e o por do sol de Ravel. Ás vezes quer movimento, ritmo, o outro.


Meu coração está com Quintana: “se as coisas são inatingíveis... ora! não é motivo para não querê-las...Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas!” E também concorda com Bilac, os riscos são necessários, têm que ser corridos. O maior perigo na vida é mesmo o de não arriscar nada. Ninguém pode viver por mim. Essa dança é minha. Se não arrisco seus passos, posso evitar o sofrimento e o pesar, mas não posso aprender, sentir, mudar, crescer, viver ou amar. Tem razão Bilac: só é livre quem arrisca. Mas estou com Hilda “que este amor não me cegue nem me siga. E de mim mesma nunca se aperceba.” Não quero ser o espelho daquele que me congela numa imagem de si mesmo. Sou eu, numa mistura de tudo que vejo, que leio e que me apraz. Que me atrai e até que me repele. Mas que sinto. Eu sou as minhas escolhas. Não o que querem que eu seja.


Não sou Cinderela. Prefiro ser borralheira. Na voz de Hilst encontro eco e repito: “quero que olhe-me de novo. Com menos altivez. E mais atento”. Mas não me olhe como tu, ou ela, olhe-me como eu sou. Também já olhei a mim como me olham e não gostei do que vi, pois não sou assim. Sou muito mais bonita, porque não sou igual. Não sou como. Sou o que a outra não é. Sou inteira, sendo fragmento de tudo que encontro e que me encanta. Sou como a massa que escapa por entre os dedos: se quiserem me segurar não me apertem. Sou firme, mas me derreto e, derretida, desvaneço. Sendo firme não sou palatável, mas me concentro e me esforço. Paradoxo dos paradoxos, sou tão mole, quanto dura.


Sigo os passos do coração e não me arrependo. Esse é o meu nome, a minha sina. Carrego desde antes de nascer e não creio que isso mude, mesmo mudando de nome, porque está no sangue. É hereditário. Vem de minha avó, que seguia os passos do coração como eu. E não foi esse órgão fragilizado e doente que a matou. Depois de sete décadas e meia reclamando baixinho, parou por causa de um câncer. Seu coração insistia ainda em ser seguido por ela. Mas mesmo tendo seu nome eu sei que sou bem diferente. Eu falo alto, grito e não deixo essas dores entrarem além de meu coração. Ele é o único que me suporta, o resto do corpo não. Prefiro não armazenar problemas fora dele. “E eu ainda sou bem moça pra tanta tristeza”. E eu ainda quero ver a vida. Como deve ser. Como eu penso que é. Não como querem que seja.

Escrito por Aya Ribeiro às 15h29
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15/07/2008


Para Ouvir de Salomão


Já li uma vez e não foi na Bíblia: “Tu és formosa amiga minha. Em ti não há mácula”. Desse tempo restou a lembrança. E essa persistência da memória parece querer confirmar o peso da idade que chega junto com as rugas e com os teimosos fios grisalhos bem na franja, que ainda insiste em lembrar a figura da menina.
Ora! Eu não diria como Cecília “em que espelho ficou perdida a minha face”, porque nunca gostei muito de espelhos. Então não foram neles que perdi minha faceirice, e já não me reconheço mais nas fotografias.
Parece que foi ontem! Que frase saudosista! Coisa mais sem imaginação! Jargão dos mais simplórios e tão tolamente repetido! Parece que minha face ficou mesmo perdida entre um livro e outro. Entre o teclado e o monitor, na ansiedade de capturar o perecível conhecimento. Quanta ilusão! Nem um livro, nem uma biblioteca, nem tampouco uma reunião de bibliotecas (taí um coletivo que não aprendi nas aulas de português e que me faz falta neste instante) podem conter ou capturar o conhecimento. Ele é tão perene, quanto perecível. Outra coisa paradoxal que nos faz querer contido o que não se contém. É quase como repetir Camões ao definir o amor: é um estar preso por vontade. Estranho, mas o amor é realmente isso, a liberdade de querer se sentir preso. É mais: é ser dois sendo um. É ser eu dentro de nós. Sem trocadilho ou com ele, substantivo ou pronome, qualquer dessas classes acorrenta o sujeito. E o mais bizarro disso tudo é que o sujeito não quer se desatar.
Retomando o fio da meada, por que fui me lembrar da declaração de Salomão à amada Sulamita? Não andei mexendo nas gavetas, nas cartas amareladas de tanto tempo guardadas, mas vasculhei minhas memórias e bateu a saudade. Saudade da menina de dezessete anos, que ficou retratada em algum álbum de fotografias e quem sabe na mente de algum Salomão. Imagem congelada que bem poderia lembrar ainda Catherine Denneuve com suas loiras e suaves madeixas e seu olhar fatal. Quem a essa altura se lembra da francesa?
Se já fui Princeza para alguém, perdi o trono. Mas insisto em ignorar a ortografia porque esse era nome próprio e era meu. Não sei por onde anda meu Salomão. Até as novidades que tinha para lhe contar ficaram velhas. Mas nada como um dia atrás do outro, já diziam as sábias fiandeiras, no tempo de minha avó. Quem sabe ainda reencontro por aí minha foto amarelada, nessas voltas que o mundo dá. Não sou rezadeira, por isso não faço novena nem a Santo Antônio, nem a Santo Expedito ou à Santa Rita, que, dizem, padroeiros das causas perdidas. Eu creio no Deus trino, em um único Senhor e salvador: Jesus Cristo, Emanuel! E se encontrar o meu retrato não prometo dar três pulinhos em louvor a São Longuinho, mas vou sugerir a beatificação de Galilei.
Já me disseram que dormir é um santo remédio, que cura todos os males, até dor de cotovelo, e faz bem à pele e ao cabelo. Acho que cura sandice também. Melhor dormir do que escrever mais bobagens.
18/10/03 às 02h57.



Escrito por Aya Ribeiro às 22h51
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Maktub

Entre teias e telas
nas linhas
nas entrelinhas
no telefone
eu ainda te esperava
O destino
a sina...
Maktub!

E eis que como nunca tivesse ido
Como uma novidade
Surgiste
em minha vida
sem aviso prévio.
Iluminando a minha tela,
descontrolando meus sentidos
confusamente certo...

Escrito por Aya às 22h31
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Sem Poente

Hoje trago marcas
profundas
na alma, nos olhos
no inconsciente
Hoje tenho marcas
indeléveis
difíceis de apagar
Marcas que levam a entender
que é difícil viver o amor
O amor quer morada alegre
Tenho marcas que não podem ser apagadas
Nem enter,
Ou delete
Só o amor
Sem cobranças, sem meias verdades
Que não me confundem a alma
Mas que a transcende
E acalma
E não me deixa entardecer...

Escrito por Aya às 22h30
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Procura

Eu quero um homem
Que não me chame pelo nome,
Que me traga flores
No meio da tarde,
E me faça sorrir pela manhã
Que ria das minhas bobagens.
Que me faça sentir importante,
Que me tire do sério, e,
sem mais nem menos me encante,
E me mostre, sem pudor
E sem frescura
Um jardim de miosótis
No meio da noite
E que me faça sentir viva,
Que me encante
e me fascine,
Que me entenda...
Sem me entender
Que me olhe de frente,
Como eu sou
Que me diga o que sente,
Sem mentir...
Eu quero sim, esse homem
Que eu possa chamar de amante,
Mas que seja meu amigo
Que assista comigo o futebol
Nas tardes tediosas de domingo
Mas me acorde na segunda
Com o gosto da lua na boca
Com a energia do sol no coração
Que eu possa mostrar-me como sou...
Eu quero um homem
Que me faça companhia,
Que me faça também sentir saudade,
Desejos do que eu não tive
Eu quero um homem
Que me ligue na madrugada,
Que me acorde com o luar
Que me tire o sono,
Que durma no meu colo
Que me encha de vida,
Mas que vá embora
Antes de me fazer sofrer...

Escrito por Aya às 22h30
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Sem Autocrítica


É pra você que me transformo...
Em anjo de cara limpa
Em espanto e ternura
De descobrir o amor
Uma outra,
que pra você faz versos
e espreita silenciosa
à espera de uma resposta
que não chega no envelope,
que não vem no telefone
nem na tela virtual

Mas mesmo assim repete a dose
sem temor e sem pudor
porque sente que o destino
quer assim
Maktub!
era pra ser!
mesmo que ser sem querer
e sendo
É pra você que sou poeta
mulher inteira, em verso e em prosa
poesia sem nexo
amor sem sexo
mas verdadeiro
Mulher
plena de alegria
que busca rimas,
para falar de um amor diferente
que não sabe porque sente
mas sente e
sabe que é amor
E nessa entrega de palavra
se desnuda e se reflete
na alma, no corpo, na mente
coisa que só ela sente
e nem sabe porquê
Sabe que gosta de sentir
inteira, plena de amor
que não anseia pela metade
que busca outro inteiro
numa paixão calma,
que mexe com o corpo,
mas venha da alma
e que chegue ao entardecer...

Escrito por Aya às 22h28
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Captura





“Basta-me um pequeno gesto- diria Cecília-
Feito de longe e de leve, para que venhas comigo e eu, para sempre te leve”
A mim, basta-me apenas um instante
Para que eu capture teus olhos
E seja neles capturada

Basta-me apenas um instante
Para que eu me perca nesse olhar
Perscrutador
Que me embrenhe nessa sua solidão
Imensa e contagiante.

Basta-me apenas um instante
Para que eu mergulhe nesse lago
Que é o seu olhar
Que eu me enclausure nesse brilho
E desoriente na aura desse sol

Basta-me apenas um breve sinal
Para que eu queira perseguir essa águia
E voar com ela por alturas inatingíveis
Segura por esses braços
Protegida por essa doce inquietude
Basta-me apenas um instante
Para que eu aconchegue no teu abraço
E não queira sair desse toque
Do aperto dos teus braços.
O afago do teu peito

Basta-me apenas um instante
para que eu navegue
na tua alma doce, e descubra
os teus desejos
que também são meus

Basta-me apenas um instante
Feito de perto, tão solto
E para que eu possa dizer
Sem palavras
Que quero amar você

Escrito por Aya às 22h26
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Fagulhas de uma fênix


Medito, paro.
Escrevo:
Fagulhas de inspiração
Restos digeridos
Do que fui,
Ou gostaria de ser.
Não faço. Escrevo...
Busco uma identidade
Que nascerá de mim
Do meu eu adormecido.
Sonho: Viver não me atrevo.
No fundo sou assim,
Uma fênix que não se deixa morrer:
Renasço das cinzas de um verso perdido.

Escrito por Aya às 15h29
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